Informática

CES 2017

O Consumer Eletronic Show – CES, abriu 2017 com muita tecnologia e novidades. OK, isto foi no início de janeiro e para muitos isto já é assunto “velho”. Mas se você gosta de tecnologia e não sabe o que é a CES, ou não teve tempo de se ligar no que aconteceu por lá este ano, então acho que você vai gostar deste relato sobre a minha participação no mesmo.

Era minha primeira vez no evento, que este ano comemorou 50 anos de existência e abriu sua área de exposição entre os dias 5 e 8 de janeiro. Esta edição reuniu aproximadamente 3.800 expositores e 175.000 pessoas (55.000 de fora dos EUA) e me lembrou das antigas COMDEX em Las Vegas, só que ainda maior!

No seu início o foco da CES era apenas em TVs e rádios, mas ao longo dos anos foi conquistando a reputação de ser o local para lançar grandes inovações, tendo sido palco para a apresentação, dentre outros, dos primeiros videocassetes, DVDs e rádios digitais.

Nos últimos anos, contudo, com o crescimento do evento ficou difícil ter um único lançamento que ganhasse mais destaque. As empresas maiores começaram até a fazer eventos próprios e exclusivos para conquistar mais espaço na mídia, mas mesmo estas apresentam suas linhas de produtos e soluções em grandes stands. A CES continua imbatível para observar as mais novas tecnologias e tendências. A quantidade de lançamentos é tão grande que muita coisa pode passar desapercebida.

As expectativas para 2017 giravam em torno do 5G, Inteligência artificial, Carros autônomos, realidade virtual, robótica e a internet das coisas, com foco, é claro, nas casas conectadas/inteligentes. É claro que o evento continua trazendo lançamentos de novas TVs e o destaque esta ano foram os televisores 4K com mais nitidez e cores mais vivas. Me impressionou também como as TVs estão cada vez mais finas.

Um dos expositores criou uma verdadeira “caverna” televisiva, com inúmeras TVs penduradas lado a lado e formando um arco onde as paredes se misturavam com o teto. Nesta caverna eram projetadas imagens variadas, de baleias no mar à aurora boreal, tudo em 4K!

Haviam também soluções que dispensavam TVs, fazendo a projeção de imagens de alta definição em paredes, mesas ou qualquer outra superfície. Me chamou a atenção um dispositivo que acoplado a um celular permite que a tela do mesmo seja projetada em até 70” em qualquer parede.

Voltando as TVs de 4K, muitos expositores estavam vendendo a ideia de usá-las como monitores de computador para jogos em alta definição, funcionando de forma acoplada a óculos de realidade virtual. Ouvi de um especialista uma dica interessante: As TVs de 4K para uso tradicional, num canto da sala com várias pessoas assistindo, só valem a pena em tamanhos acima de 55”. As TVs menores, que podem ficar muito próximas de uma ou 2 pessoas sem prejudicar a visualização, são mais recomendadas mesmo para quem for jogar um game com um amigo.

E por falar em Games, a lista de expositores da CES trouxe 338 empresas na categoria Jogos e outras 261 na categoria Realidade Virtual/Aumentada (AR/VR). Algumas empresas maiores tinham uma parte do seu stand focado nestas tecnologias, mas muita coisa interessante podia ser vista no stand de pequenas empresas especializadas.

O evento foi palco também de uma das etapas da Formula-E, competição promovida pela Federação Internacional de Automobilismo, com carros elétricos competindo nas ruas de Las Vegas. Tem também a eRace, uma corrida toda em computador juntando os pilotos dos carros reais com as ferras das corridas digitais. O Nelson Piquet Jr. Foi um dos competidores, mas não se saiu muito bem na corrida virtual.

Não custa lembrar que as aplicações de AR/VR não se restringem apenas à jogos, com expositores mostrando o uso destas tecnologias na agricultura, saúde e outros setores da economia.

Todo e qualquer eletrodoméstico que você possa imaginar estava em pelo menos um stand na CES. Os mais tradicionais, como geladeiras, lavadoras, secadoras, fornos, aparelhos de som e celulares, eram apresentados em diversos tamanhos e cores, e cada vez mais interconectados. Os aspiradores de pó robóticos, que foram uma grande novidade há alguns anos, são agora oferecidos por mais de 10 empresas diferentes, sendo capazes de regular a força de sucção automaticamente de acordo com a superfície sendo percorrida, e percorrendo com mais eficiência toda a área a ser limpa.

Voltando a falar de carros elétricos, como eles precisam de uma tomada para recarregar suas baterias, parece que eles passaram a ser considerados eletrodomésticos e invadiram o evento. Ouvi alguém dizendo que a CES já pode ser considerada o Salão do Automóvel de Las Vegas, trazendo não apenas carros elétricos mas também carros autônomos. O brasileiro Carlos Gosn, presidente mundial da Nissan, foi inclusive um dos “keynote speakers” e corroborou a afirmativa de que estes carros vieram para ficar.

Um modelo que me chamou muito a atenção foi uma van da Mercedez com dois drones no teto. Um robô na parte de dentro pode tirar um pacote de uma de suas prateleiras e através de uma abertura no teto posicioná-lo para que um dos drones possa levar o pacote até um destino próximo.

E por falar em drones, era possível encontra-los em diferentes formas e tamanhos. Num extremo, versões pequenas e recreativas em formato de naves do Star Wars. Noutro, um drone gigante com assento para um humano adulto. Não sei se este modelo será mais barato que um helicóptero, mas juntou um monte de gente para ver esta novidade.

Impressoras 3D, que também já não são mais uma grande novidade, estão evoluindo rapidamente e estavam concentradas num dos salões da exposição. Você já parou para pensar onde se compra “cartuchos de tinta” para impressoras 3D? Bem, os modelos mais simples precisam de fios de resina, o que acabou criando um mercado com diversos fornecedores de carretéis de resina colorida. Existem também impressoras 3D que usam materiais mais sofisticados, como metais, mas que são infinitamente mais caras! Um stand mostrava inclusive uma moto e um carro cujas peças teriam sido todas impressas neste tipo de impressora.

É claro que havia uma grande área de exposição dedicada aos robôs, inclusive alguns poucos robôs industriais (até porque a CES tem foco em eletrônicos de consumo e não em soluções industriais). Ouvi relatos de que no Japão já tem uma rede de “fast food” que faz uso de um robozinho para mostrar o cardápio para os fregueses e anotar seus pedidos. Mas os robôs mais comuns em exibição eram os com fins domésticos ou educacionais. Estes últimos com foco nos espaços Maker, que é um novo nome para um laboratório de robótica, cada vez mais comuns em escolas do nível médio na América do Norte e Europa. O movimento Maker está se expandindo também no ensino superior, em especial nas escolas de engenharia, para tornar o currículo mais interessante e para fomentar a inovação em torno destas novas tecnologias.

E por falar em inovação, a CES tem reservado um espaço cada vez maior para mostrar novidades que estão surgindo nas startups e nas universidades. É o chamado Eureka Park, apoiado pela National Science Foundation dos EUA, que este ano reuniu cerca de 600 empresas iniciantes de várias partes do mundo. Além do próprio EUA, países com número significativo de startups eram a França, Holanda e Israel.

Como você já deve ter percebido, é muita coisa para ser vista em tão pouco tempo. Eu acabei passando muito rapidamente pela área da exposição reservada para vestíveis (cheias de relógios inteligentes) e pela área com foco em saúde e bem-estar, com equipamentos esportivos e dispositivos para monitoramento das mais diferentes atividades.

Não foi falta de interesse, e sim falta de tempo !

Tudo isto que eu contei até aqui esta dito mais ou menos do mesmo jeito num vídeo produzido pelo TI Rio e disponível em https://www.youtube.com/watch?v=edn68KEF-u0

O que eu conto daqui para o final são algumas opiniões, insights e previsões colhidas nos painéis, palestras e seminários que são realizados em paralelo ao CES 2017 e que eu tive oportunidade de assistir

Já se tornou tradição ter um convidado de destaque para fazer o “keynote” de abertura, na noite anterior da inauguração oficial da CES. Este ano quem fez esta palestra de abertura foi o fundador e CEO da Nvidia, uma empresa conhecida por produzir placas gráficas de alto desempenho, e admirada por gamers em todo o mundo.

O que talvez nem todo mundo saiba é que as ações da Nvidia mais que dobraram de valor em 2016 e que a empresa já não é relevante somente no setor de games. Foi exatamente isto que o CEO da empresa destacou na sua apresentação.

Primeiramente, ele não negou as origens da empresa e reafirmou o compromisso de continuar investindo em placas gráficas para trazer games com cada vez mais realismo e interatividade. Compartilhou trechos de novos jogos que serão lançados em breve e mostrou novos recursos relacionados com AR/VR.

Mostrou também um novo console com streaming de vídeo, o Shield TV, com resolução 4K e incorporando os principais fornecedores de conteúdo do mercado, além de ser compatível com o Google Assistant e com o SmartThings hub da Samsung. A Nvidia esta produzindo também um dispositivo que é um microfone de ambiente para ser espalhado pela casa e assim facilitar a interação dos moradores o Shield TV através de comandos de voz.

Mas o motivo pelo qual a Nvidia tem se destacado tanto no mercado é a possibilidade de usar suas placas gráficas para o processamento de redes neurais, abrindo todo um novo leque de possibilidades para a empresa.

Tanto assim que o ponto alto da apresentação foi o anuncio de um sofisticado computador de bordo para veículos em geral, permitindo que os mesmos possam operar de forma autônoma. Esta não é a única tecnologia sendo desenvolvida com esta finalidade, mas as parcerias anunciadas mostram que eles estão entrando neste jogo para valer.

Um componente importante para carros autônomos são os mapas que ajudam estes veículos a seguir viajem. Só nesta área a Nvidia anunciou parcerias com a Tom Tom e Baidu, respectivamente líderes de mercado na Europa e China. A Bosch, outra parceira da Nvidia, também tem uma divisão de mapas mas é mais forte ainda em componentes para veículos. Mas quem foi ao palco nesta etapa da apresentação foi o presidente da Audi EUA, para dizer que já está utilizando tecnologia da Nvidia e que espera poder começar a vender seus carros autônomos para qualquer interessado a partir de 2020.

Assisti também o Encontro sobre Privacidade e Segurança de Dados realizado na manhã do sábado. Tem muito coelho para sair desta cartola ainda, já que a maioria das pessoas ainda não se dá conta de como podem ser graves as consequências de não se preocupar com sua própria segurança e privacidade ao navegar pela internet.

As empresas precisam também ficar atentas, pois devem garantir a privacidade e segurança das informações de seus clientes. No encontro chamaram a atenção para o GDPR – General Data Protection Regulation da União Europeia, que vai entrar em vigor em maio de 2018. É uma legislação que precisará ser seguida por toda empresa que tiver clientes na UE.

Outra atividade interessante foi o café da manhã promovido pelo Shelly Palmer, com foco nas inovações da CES. O Shelly é um consultor de Nova York bastante respeitado, que acompanha o mundo da tecnologia, com especial atenção ao universo do entretenimento. Ele resumiu a CES 2017 da seguinte forma: Autonomia, Machine Learning, e on-demand. Para ele esta foi uma das mais importantes edições da CES nos últimos anos, justamente porque diversas tecnologias que até muito recentemente evoluíam de forma independente começaram a ser juntadas em diferentes produtos e começam a trazer resultados surpreendentes.

Ele comparou a capacidade dos carros autônomos em exibição na feira com a de um adolescente que acabou de tirar a carteira de motorista. Mas o aprendizado que vai acontecer nos próximos 2 ou 3 anos, através do uso de machine learning, redes neurais e outras tecnologias, permitirá sim que estes carros autônomos comecem a dominar o mercado a partir de 2020.

Vale aqui compartilhar um possível cenário disruptivo relacionado com carros autônomos que ele descreveu durante sua fala: Os carros autônomos se tornarão mais seguros e causarão menos acidentes, fazendo com que as seguradoras comecem a cobrar apólices mais caras de quem tem carros “tradicionais”. As gerações mais jovens, mais habituadas à economia do compartilhamento, vão comprar menos carros e usar mais os serviços de Uber e assemelhados, operando com carros autônomos. Com menos carros particulares nas ruas (que passam a maior parte do tempo estacionados em casa ou no trabalho) será menor a demanda por vagas e o abastecimento dos carros autônomos das empresas de “taxi” será problema delas, diminuindo também a necessidade de postos de gasolina e de oficinas de reparo. Motoristas, frentistas e mecânicos terão que procurar novas ocupações e a dinâmica do transporte urbano será significantemente alterada. Com o passar do tempo, quem quiser continuar a dirigir seu carro numa grande cidade terá que ter muito dinheiro ou até mesmo tirar uma licença especial …

Mas num cenário mais imediato, tratando sobre as casas inteligentes, o Shelly reconheceu que ainda existem desafios para fazer com que eletrodomésticos e outros dispositivos de diferentes fabricantes possam falar entre si para viabilizar de fato a coordenação e operação segura e fácil de todos estes dispositivos.

Isto foi corroborado por outros panelistas tratando deste mesmo assunto, antecipando o surgimento de uma nova linha de assistência técnica para ajudar os consumidores a instalar e configurar todos estes equipamentos em suas respectivas casas.

É bem verdade que durante a CES a ZigBee Alliance, um grupo de mais de 400 empresas que fabricam aparelhos usando o protocolo wireless ZigBee, anunciou a Dotdot, sua proposta de linguagem universal para a Internet das Coisas (IoT). O problema é que 400 empresas é muita coisa mas não é todo mundo. Tanto assim que também participou da CES a Open Connectivity Foundation (OCF), fundada no ano passado e recentemente fundida com a AllSeen Alliance, e que tem o apoio de gigantes como a Intel, Qualcomm, Microsoft e Samsung. O objetivo da OCF também é criar um protocolo para troca de informações para a IoT.

Daí que muitos enxergaram a Amazon, que nem tinha um stand para o público em geral na CES, como o grande nome deste ano. Quem procurou com cuidado achou sim um stand institucional da Amazon, inclusive com apresentações para empresas interessadas no Amazon Business, que é o Portal da Amazon para compradores corporativos. Este portal já está disponível nos EUA e acabou de ser lançado na Alemanha, com funcionalidades específicas para este segmento de mercado. Não foram anunciados planos de lançamento deste portal no Brasil e nem foi este o motivo para dar destaque à empresa.

O grande feito da Amazon foi ter lançado as APIs para que diferentes fabricantes pudessem tornar seus produtos compatíveis com a Alexa, a assistente pessoal da empresa que é ativada por comandos de voz. Ela funciona nos dispositivos Echo e está se tornando a tal linguagem universal para conectar dispositivos de diferentes fabricantes. Tanto assim que mais de 70 expositores faziam referência a esta compatibilidade em seus stands. A Amazon está colhendo os frutos de ter sido pioneira.

Não custa lembrar, contudo, do anúncio feito pela Nvidia sobre o Shield TV ser compatível com o SmartThings hub da Samsung e fazer uso do Google Assistant. Isto para não falar do Google Home, um dispositivo da própria Google que vai competir diretamente com o Echo. Outros gigantes da tecnologia estão também de olho neste novo mercado e ativos em torno das oportunidades que estão surgindo, fazendo uso cada vez mais intenso de inteligência artificial, machine learning, big data e outras tecnologias que estão despontando no mercado.

Não faltarão, portanto, mais novidades ao longo de 2017 e dos próximos anos.

E se você estiver se perguntando se tem um vídeo sobre esta parte final do meu relato, a resposta é sim. Ele está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=6JWfZvvdhRg

John Lemos Forman

John Lemos Forman

Diretor at J.Forman Consultoria
Mestre em Informática (ênfase em Engenharia de Software), Engenheiro de Computação e Tecnólogo em Processamento de Dados pela PUC-Rio, com pós-graduação em Gestão de Empresas pela COPPEAD/UFRJ. 30 anos de experiência na gestão de empresas e projetos inovadores de base tecnológica.
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