Informática

CONFERÊNCIA GLOBAL DE COMUNICAÇÃO 2014

Globecom2014

Conferencia Global de Comunicações 2014

A Globecom é uma entre as 2 mais importantes conferencias realizadas anualmente pela Sociedade de Comunicação do IEEE. Foi a primeira vez que participei de uma conferencia desta área, aproveitando a oportunidade para conferir o lado “C” que se incorporou as tecnologias da informação e vem tornando a sigla TIC cada vez mais popular.

Para quem gosta de siglas e terminologias a conferencia foi um prato cheio: 3GPP, BLE, CoAP, DMTF, EEBUS, ENC, ETSI, IEEE P2413, IETF, IPSO, KNX, LPWA, M2M, MQTT, OMA, ONF, OpenDaylight Zigbee, ZWAVE e diversas outras.

Estamos em plena era da Web 3.0 onde os serviços web estão sendo incorporados em business services, conectando o mundo físico (coisas) ao mundo virtual e criando novos modelos de negócios. Dispositivos inteligentes serão aqueles que vão saber tirar proveito de dados coletados constantemente e de forma inteligente, levando em conta o ambiente em que estão inseridos.

Os principais componentes desta nova revolução são a digitalização crescente dos conteúdos, o aumento da capacidade de transmissão de dados por redes sem fio, a miniaturização dos sensores/processadores e o barateamento dos preços de todas estas tecnologias. Tudo isto já começa a aparecer em produtos comercializados no mercado, com uma enorme expectativa de ganhos ainda maiores de performance, preço e segurança, levando a uma massificação de dispositivos se comunicando através da internet. As previsões dão conta de que em 2020 teremos mais de 50 bilhões de “coisas” interconectadas no mundo.

Workshop sobre a Internet das Coisas e dos Serviços

O primeiro dia foi dedicado ao “Industry Workshop on the Internet of Things and Services” – IoTS. A programação foi muito interessante, juntando gente de institutos de pesquisa com pesos pesados da indústria, tais como Bosch, GE, Ericsson, GM, Cisco, Huawei, Intel, Samsumg e Siemens.

A visão do que será a Internet das Coisas esta bastante clara para todas as empresas acima mencionadas. A maioria entende que estamos no meio de uma nova revolução que poderá ser tão ou mais impactante para a economia e para a sociedade do que foi a revolução industrial. O potencial é enorme e todos concordam que nenhuma empresa sozinha conseguirá dominar todas as peças deste enorme quebra-cabeças.

Muitos estão investindo em veículos auto conduzidos de forma autônoma, pensando no longo prazo já que poucos acreditam que estes carros estarão nas ruas antes de 2020. Os riscos ainda são muito grandes e a legislação precisará ser adaptada. Por outro lado, a IoTS já esta sendo aplicada para melhorar o desempenho do motorista, emitindo alertas de modo a diminuir acidentes. Mais do que isto, todo o processo de gestão de frotas em grandes empresas pode ser enormemente beneficiado. E muito do que se aplica a carros/caminhões pode ser aplicado também na gestão de outros sistemas de transporte, com destaque para sistemas ferroviários.

A expectativa é que os processos industriais de P&D sejam completamente reformulados nos próximos 5 anos. Se no presente o Design tem sido o principal diferenciador de mercado, determinando materiais e processos produtivos, a aposta é que a camada de inteligência a ser incorporada as coisas vai se tornar o principal diferencial competitivo. Isto vai influenciar os processos produtivos em si, que poderão se distanciar da organização em torno de grandes linhas de produção sequenciais e em massa, principalmente por conta da evolução em torno de impressão 3D.

Aliás, o comprometimento da GE com impressão 3D parece ser para valer. A produção de turbinas, que é um dos principais negócios da empresa, colocando cerca de 1700 novas unidades por ano no mercado, vem adotando cada vez mais componentes produzidos através de impressão 3D, com reflexos nas estratégias de distribuição destes componentes e gestão de estoques visando manutenção e reparação das turbinas.

Mas como tornar uma coisa inteligente ? Tomando como base um simples despertador, muitos dirão que já tem em casa um despertador inteligente na medida em que ele já toca na hora exata para a qual foi programado. Mas imagine que você se esqueceu de reprogramar o horário de despertar já que no dia seguinte é preciso estar muito cedo no aeroporto. Um despertador realmente inteligente como o que estão propagandeando por aí não precisará nem mesmo ser reprogramado. Ele poderá consultar sua agenda e descobrir o horário previsto de embarque, somando a isto o tempo médio de ir da sua casa para o aeroporto, assumindo que você irá de carro já que não há nenhuma reserva de serviço de taxi. Mais do que isto, se o aeroporto estiver fechado por conta de mau tempo, poderá ainda retardar um pouco o horário do seu despertar já que o voo não sairá mesmo no horário. No limite, seus objetos de uso pessoal poderão formar uma “rede social” para troca de informações entre eles, você e suas relações pessoais (incluindo as “coisas” destas suas relações).

Um despertador conforme o descrito acima ainda vai demorar a chegar ao mercado, mas quando chegar terá certamente a capacidade de se comunicar com o seu entorno, trazendo uma camada de software capaz de gerenciar esta troca de informações de tal forma que todos concordarão que se trata de um despertador inteligente. Ou seja, software (TI) + comunicação (C) = TIC serão indispensáveis para que esta revolução aconteça.

O pessoal da Interdigital apresentou uma equação ainda mais complicada para explicar a internet das coisas. Segundo eles, é preciso pensar em 6C SMART, onde:

6C = Content+Context+Connectivity+Cloud+Collaboration+Cognition

Conteúdo+Contexto+Conectividade+Nuvem+Colaboração+Cognição

SMART = Scalable+Manageable+Adaptable+Reliable+Trustworthy

Escalável+Gerenciável+Adaptável+Robusto+Confiável

Quem quiser conhecer melhor o ponto de vista da empresa pode acessar www.interdigital.com/iot.

Desafios

Não faltam desafios a serem superados até chegar a este cenário de “coisas” inteligentes realmente precisas e confiáveis (e se o seu despertador inteligente não te acordar na hora certa?).

A internet, que se supõem será a rede utilizada para conectar tudo com todos, não conta ainda com garantias de autenticação, tempo de resposta e capacidade de banda que ofereçam o nível de confiabilidade necessário para inúmeras aplicações imaginadas.

Já temos hoje uma quantidade enorme de sensores espalhados pelo mundo (muitos em celulares), que conectados vão sobrecarregar ainda mais a internet. Mas a energia para mantê-los operando de forma autônoma é outro desafio, que impõem inclusive a demanda por uma camada de software ainda mais sofisticada para otimizar a gestão e desempenho destes sensores.

A informação gerada por todas estas fontes precisará ser extremamente confiável e disponível numa velocidade que poderá variar de acordo com a situação, mas que numa estrada com dois veículos em rota de colisão precisará ser quase que instantânea, coisa que a internet atual não é capaz de entregar.

Ainda que a própria internet seja turbinada com uma camada de inteligência capaz de autoconfigurar rotas e prioridades para as informações nela trafegadas, a origem do dado e sua circunstancia vão demandar uma modelagem semântica da informação muito mais sofisticada do que temos atualmente. Os algoritmos de software em uso precisarão continuar a evoluir para extrair das informações disponíveis (que serão abundantes) o conhecimento relevante para diferentes situações.

Outro aspecto extremamente importante, mesmo considerando que a noção de privacidade tem mudado bastante em anos recentes, é justamente a questão de como garantir a proteção aos dados de um indivíduo qualquer. Como garantir que um amigo não consiga invadir seu despertador inteligente para que ele o acorde no meio da madrugada ? Pior ainda, que um desconhecido consiga abrir a tranca inteligente da sua casa ? E as informações que você concordou em compartilhar com uma empresa ou ente de governo ? Poderão eles trocar informações entre si ? Que tipo de limites deverão ser impostos ?

O maior desafio, contudo, pode estar na falta de padronização, sem a qual não será possível garantir a compatibilidade futura entre “coisas” de diferentes fabricantes, que precisarão falar através do compartilhamento da infraestrutura de comunicação numa “linguagem” que permita endereçar, entre outras, as questões de segurança e privacidade sem exigir que as pessoas precisem configurar seus dispositivos através de rotinas complexas (quem sabia ou tinha paciência para configurar o videocassete para gravar a novela ?).

Padronização

Se a falta de padronização é um problema que impede a IoT de realmente acontecer, a solução disto é uma enorme oportunidade de mercado. Tanto assim que não faltam iniciativas buscando endereçar a questão, querendo atrair o maior número possível de participantes para, deste modo, alcançar o status de ser um padrão de fato. Seguem alguns exemplos: A Aliança Internet Protocol for Smart Objects (IPSO); a Allseen Alliance; o Industrial Internet Consortium e a OpenADR Alliance.

O Evento Principal

A conferencia começava a cada dia com as palestras magnas (keynotes), seguidas de inúmeras palestras, painéis e demonstrações acontecendo em paralelo. A cada dia eram sempre dois keynotes, cujos vídeos estão todos disponíveis na internet.

No primeiro dia o que mais me chamou a atenção foi um painel sobre Transformações na Rede. A proposta foi discutir o conceito de rede de nuvem definida pelos usuários (User-Defined Network Cloud – UDNC), que é uma visão de como serão as redes no futuro, constituindo uma rede global composta por redes inteligentes que se interconectam e que são capazes de se configurar para melhor atender as necessidades de empresas e clientes. Parte essencial desta visão são as Redes Definidas por Software (Software-Defined Networks – SDNs) e a Virtualização de Funções de Rede (Network Function Virtualization – NFV). Com o SDN o controle da rede migra do hardware para o software enquanto que o NFV substitui equipamentos específicos de rede por plataformas de software construídas em máquinas virtuais.

Dentre as iniciativas mencionadas pelos painelistas destaco a Open Platform for NFV – OPNFV, um projeto de software aberto com foco na aceleração da evolução do NFV; investimentos no OpenStack para aumentar a confiabilidade da plataforma e facilitar sua adoção por empresas de Telecom; e o Projeto Calico que esta repensando a forma de se construir redes virtuais.

Outro painel discutiu novos modelos de negócio com base nas atuais implementações de Smart Grids, tirando proveito da capacidade de obter dados em tempo real e permitir a gestão e otimização do consumo de energia. Dentre os cases apresentados achei interessante o Smart Grid 3.0, que incorpora funções sociais na gestão do consumo de energia e permite a doação de energia para comunidades ou instituições menos privilegiadas através de Apps em celular. Os planos de uma outra empresa para disponibilizar uma rede de abastecimento inteligente para veículos elétricos, permitindo que o seu abastecimento seja integrado com a conta de luz da residência do proprietário do veículo, também chamou minha atenção. Por fim, foi relatado o uso de medidores inteligentes de consumo de energia e como são desafiadores os problemas derivados das tentativas de “puxar” energia de cabos de alta tensão e de burlar o funcionamento dos medidores para conseguir leituras indicando um consumo menor. A expectativa é que sensores cada vez mais inteligentes possam vir a dar conta destes problemas.

No dia 10 de Dezembro o destaque, na minha opinião, foram as discussões em torno do 5G. Primeiro a palestra magna do Wen Tong, Chefe dos Laboratórios de Pesquisas em Tecnologias de comunicação da Huawei. A palestra se focou nas pesquisas da Huawei em torno do 5G, discutindo as tecnologias necessárias para alcançar as metas proposta para esta nova geração de redes de comunicação. Segundo ele, o 5G hoje é equivalente ao 4G em 2004, ou seja, as redes 3G mal começavam a ser montadas e comercializadas e as pesquisas em torno do LTE ainda estavam começando. Para o 5G se tornar realidade os obstáculos a serem vencidos são comparativamente maiores e vão exigir um nível de cooperação muita mais intensa entre os diferentes interessados.

Comparando o 5G com o 4G, a expectativa é que as redes 5G tenham uma capacidade 10.000 vezes maior (conexões/Km2), velocidade 1000 vezes maior (10 Gbps), Latência menor do que 1 ms (este por sí só um tremendo desafio), 100 vezes mais links e um consumo de energia 1000 vezes menor. Para tanto será necessário mão apenas ampliar o espectro de frequências reservadas para o 5G, mas utilizar todo o espectro disponível com muito mais eficiência. Apesar de todos estes desafios, a Huawei esta prometendo testes públicos com o 5G na Copa de 2018 na Rússia e nos Jogos Olímpicos de Inverno na Coréia do Sul neste mesmo ano.

O debate em torno do 5G continuou num painel que analisou seus requisitos técnicos e tecnologias chave. Me chamou a atenção o fato da China ter montado um grupo para promover as tecnologias em torno do 5G, o IMT-2020, congregando 3 ministérios daquele país (MIIT, NDRC and MOST) e focado na promoção da pesquisa e na cooperação internacional. Na verdade o IMT-2020 parte dos esforços do International Mobile Telecommunications-Advanced (IMT-Advanced) desenvolvido no âmbito do União de Telecomunicações Internacional (ITU), mas com o propósito de colocar a China na vanguarda destas pesquisas. Mas eles não estão sozinhos nesta corrida, já que a União Europeia vem realizando diversos investimentos em projetos em torno do 5G, assim como a Coréia do Sul em parceria com o Japão. Os EUA não parecem estar atrás, conforme avaliação feita pelo serviço de pesquisas do congresso americano. O que chama a atenção, no entanto, é o aparente descolamento do Brasil e outros países ao sul do equador destas iniciativas, sem nenhum projeto de pesquisa com recursos relevantes sobre o tema.

No meu último dia na conferencia continuei assistindo os keynotes e painéis, todos muito interessantes, obviamente com foco maior na Comunicação como pilar fundamental das grandes tendências tecnológicas sendo discutidas (Computação na Nuvem, IoT, Big data).

Conclusões

São várias as tecnologias que irão compor a Internet das coisas (ou Internet de tudo, ou ainda outra designação que venha a prevalecer) e o pessoal que trabalha com as tecnologias de comunicação estará empenhado em tornar o 5G uma realidade.

O software será um componente comum entre todas as tecnologias que darão suporte a este cenário futuro de uma rede global composta por redes publicas e privadas que se interconectam. Para a infraestrutura de Telecom isto se traduz no uso de SDN e NFV. Para os grandes grupos industriais que irão fabricar as “coisas” que estarão conectadas, isto implica também em acoplar uma camada de software nestes dispositivos.

Por outro lado, estes grupos não querem se ver limitados a desenvolver produtos para plataformas tecnológicas proprietárias controladas por terceiros e por isto mesmo estão priorizando investimentos em padrões abertos, com destaque para tecnologias como o OpenStack para viabilizar uma Nuvem Computacional que facilite a interoperabilidade.

Mais do que isto, grandes grupos industriais estão repensando suas estruturas de P&D&I, com novos institutos de pesquisa adotando novas formas de gestão e funcionamento. Muitos estão criando ambientes similares a aceleradoras de startups, fomentando uma operação mais enxuta e com ciclos mais curtos de desenvolvimento e avaliação de resultados. Criam ainda ambientes propícios a uma maior interação com parceiros e clientes, fazendo uso extensivo de ambientes de colaboração na internet para estimular o crowdsourcing e variações de modelos de inovação aberta. Nestes ambientes, protótipos são desenvolvidos com base em hardware aberto, adotando tecnologias como Arduíno, Raspberry Pi e similares.

O cenário descrito para a IoT em 2020 depende de novas tecnologias que ainda não surgiram nem mesmo nos laboratórios, mas já existem exemplos concretos de sistemas em funcionamento que demonstram que tal cenário é sim possível. A porta de entrada para a IoT tem girado em torno de iniciativas sob o guarda-chuva das Cidades Inteligentes e sustentáveis, com soluções bem sucedidas nas áreas de gestão de parquímetros, controle de transito, manutenção de lixeiras, compartilhamento de informações sobre atrações turísticas e alternativas de locomoção para chegar até elas, dentre outras. Não faltam projetos para a definição e evolução de padrões diversos, inclusive em torno de soluções para cidades inteligentes como é o caso do www.ict-citypulse.eu. Outros tantos foram mencionados anteriormente neste texto, mas será preciso esperar o movimento das forças de mercado para saber quais deles prevalecerão.

Os pilares da IoT já são uma realidade hoje, apesar destas tecnologias estarem ainda na sua infância. Muitas oportunidades estão postas e governos e grandes empresas estão investindo para tentar tirar proveito das mesmas. O Brasil parece acompanhar todo este movimento, mas muito mais como mercado alvo com enorme potencial de consumo destas tecnologias, do que como colaborador ativo no desenvolvimento de P&D&I que irá viabilizar a exploração destas oportunidades.

John Lemos Forman

John Lemos Forman

Diretor at J.Forman Consultoria
Mestre em Informática (ênfase em Engenharia de Software), Engenheiro de Computação e Tecnólogo em Processamento de Dados pela PUC-Rio, com pós-graduação em Gestão de Empresas pela COPPEAD/UFRJ. 30 anos de experiência na gestão de empresas e projetos inovadores de base tecnológica.
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